Vinhos mono ou multivarietais?

29 de março de 2010
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Até há poucos anos atrás, a maior parte da produção mundial de vinho era multivarietal, isto é, os vinhos eram elaborados a partir de várias variedades de uva. Na verdade, haviam poucas vinícolas que fizessem uma seleção criteriosa das castas, pelo que o vinho era originário de uma ou outra região, assumindo o respetivo blend de castas.

Em tempos idos, alguns visionários começaram a plantar e a vinificar castas que não eram tradicionais na sua região, procurando dois objetivos. Por um lado, avaliar o interesse dessas castas para a melhoria dos seus próprios vinhos e, por outro, analisar a sua adaptação ao terroir para a produção de vinhos monovarietais, feitos a partir ou majoritariamente de uma casta apenas.
Após algum tempo esta prática expandiu-se, todavia com outros objetivos. Muitos dos que criticavam a sua prática generalizada, sobretudo no Novo Mundo, renderam-se. Consequentemente, a pressão de um mercado imediatista e facilmente manipulado por uns quantos ditos especialistas, ajudou este impulsionamento. Até os concursos internacionais monovarietais passaram a ser um chamariz interessante para esta prática.
Entretanto, alguns trabalhos foram desenvolvidos no sentido de melhorar a produção vitícola, começando pela seleção das castas mais adequadas a cada região, a cada terroir. De fato, esses trabalhos tiveram extrema importância na melhoria dos vinhos, principalmente nos oriundos do Velho Mundo.
Na verdade, o progresso vitivinícola foi notório em todos os campos, tanto para as práticas vitícolas, como enológicas e até mesmo para a comercialização dos vinhos e marketing.

Este processo foi, com certeza, um mal necessário. Contudo, trouxe consigo uma perda da variedade e da riqueza do vinho, da sua autenticidade e carácter. A meu ver, ter-se-á, portanto, que explorar a diversidade das castas e a consequente diversidade dos vinhos e não o contrário. Sendo assim, o caminho da globalização dos vinhos passa cada vez menos pela uniformidade e cada vez mais pela diversidade, ou seja, terá que haver um mercado para os vinhos massificados, mercado esse que tende a ter preços cada vez mais baixos e, por outro lado, um mercado para os vinhos que afirmam a sua diversidade, identidade e carácter, mercado este que tenderá a ser mais estratificado e com preços mais elevados.

2 Responses to Vinhos mono ou multivarietais?

  1. Rafael on 2 de abril de 2010 at 01:32

    Eu particularmente adoro os vinhos feitos com mais de uma variedade. Acho que assim conseguimos extrair o que há de melhor em cada uma delas, como acontece na maioria dos casos no velho mundo…
    Mas também encontro uns excelentes cabernet e malbec produzidos aqui na américa do sul…
    É como eu digo, o melhor vinho é aquele q vc gosta…
    Abraços e parabéns pelo blog, Excelente!!!

  2. Inês on 9 de novembro de 2010 at 20:37

    Obrigada Rafael!!

    De fato, há vinhos bons em praticamente todas as regiões produtoras do mundo. Todavia, os mais “naturais” são mesmos aqueles que englobam várias castas diferentes, uma vez que não há tanta necessidade de se efetuarem correções após a fermentação ou estabilização dos vinhos.

    Esse slogan faz todo o sentido!! Realmente, “o melhor vinho é aquele que você gosta”!

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Trabalho, escrevo e ensino sobre vinhos. Formei-me em Enologia pela Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal e pela TEI of Athens, na Grécia. Proveniente de família produtora de vinhos na região do Dão, desenvolvi vários trabalhos em vinícolas em Portugal, Austrália, EUA e Itália. Hoje mantenho uma empresa de ensino, treinamento e consultoria na área de vinhos - Viavitis Cursos & Consultoria - no Brasil. Nosso objetivo é desmistificar e disseminar a cultura do vinho neste país cada vez mais ávido em descobrir o prazer que está por trás de uma taça de vinho.